Linguagem reproduz racismo no cotidiano brasileiro
- 18 de mai.
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Atualizado: 19 de mai.
Expressões herdadas da escravidão seguem em uso e reforçam desigualdades raciais, apontam pesquisadores.
Por: Sophia Claudino e Alliah Peres
A língua portuguesa falada no Brasil carrega marcas do período escravocrata. Expressões como “criado-mudo” e “não sou tuas negas” surgiram nesse contexto histórico, conforme apontam estudos da linguística. Essas construções, que associam pessoas negras à submissão e inferioridade, contribuem para a manutenção de estereótipos raciais.

De acordo com a doutora em Estudos de Linguagem, Mônica Maria dos Santos, do curso de Letras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus Araguaia, essas expressões impactam diretamente a forma como sujeitos racializados se percebem socialmente. “Quem é alvo dessas falas começa a acreditar que seu corpo não é legítimo e que sua presença é um problema. Isso adoece”, afirma. Segundo a docente, o uso constante de termos racistas fragiliza a autoestima e o sentimento de pertencimento social, tornando-se uma forma de violência linguística, que “não precisa de intenção, apenas repetição”.
Conforme explica a professora, a linguagem vai além da comunicação cotidiana e atua na produção de sentidos e na organização das relações sociais. “A língua nunca é neutra. Vem carregada de história, grande parte está ligada às heranças do passado colonial”, explica. Por exemplo, o termo “criado-mudo”, utilizado para se referir a um móvel, mas que remete a pessoas negras escravizadas que permaneciam ao lado das camas de seus senhores, à disposição para servi-los.
Segundo Mônica, essas expressões revelam “feridas culturais abertas” do colonialismo – sistema histórico baseado na dominação política, econômica e cultural dos povos colonizados. No Brasil, esse processo estabeleceu hierarquias sociais que definiram quais línguas, sotaques e modos de falar seriam considerados legítimos, sustentando o preconceito linguístico, caracterizado pela desvalorização de determinadas formas de falar e reconhecido como uma forma de violência simbólica.
Para a doutora em saúde coletiva Luana dos Anjos Ramos, professora da UFMT e integrante da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), o racismo estrutural é a base que sustenta o racismo linguístico. Trata-se de um sistema de organização social e institucional que mantém desigualdades raciais, distribui vantagens e desvantagens a partir da cor de pele, manifestando-se em leis, políticas públicas, acesso à educação, emprego e representação social. “Ele é invisível de certa forma, mas está nas entrelinhas do pensamento social”, afirma.
Segundo Luana, a linguagem é um dos principais meios pelos quais essas desigualdades se reproduzem. “Na linguagem, perpetuamos expressões que têm origem em um comportamento estrutural racista. Muitas pessoas reproduzem essas palavras como verdades, sem perceber a origem ou o impacto que elas causam ", explica.
Ela destaca que o apagamento das influências africanas no português falado no Brasil reforça esse processo. “Muitos dos nossos antepassados foram obrigados a aprender português de forma imposta, mudando nomes, tradições e modos de falar. Isso é o que chama de preconceito linguístico, quando você não aceita a raiz negra africana de muitas palavras que temos hoje”, completa.
No livro Pacto da Branquitude (2022), a psicóloga e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, Maria Aparecida da Silva Bento analisa como o racismo se manifesta na linguagem cotidiana. Segundo a autora, algumas formas de falar são socialmente aceitas, enquanto outras são rejeitadas, evidenciando desigualdades mais profundas. Ela define esse processo como um pacto narcísico da branquitude, um acordo invisível de autopreservação em que “os brancos protegem outros brancos, mesmo sem perceber”. Esse pacto, de acordo com Cida Bento, se expressa nas instituições e nas relações sociais, garantindo mais acesso a espaços de poder para pessoas brancas, inclusive quando possuem as mesmas qualificações que pessoas negras.
Mudança na sociedade começa pela fala
Mudar a forma como falamos não se trata de “policiamento da linguagem”, mas de responsabilidade social. Para o linguista Marcos Bagno, “a língua muda quando a sociedade muda. E a sociedade muda quando enfrenta seus preconceitos”.
A professora Mônica reforça que o cuidado com a linguagem deve ser um exercício constante de reflexão. Reconhecer a origem e o impacto das palavras, segundo ela, é essencial para interromper a reprodução de violências simbólicas no cotidiano. Cida Bento complementa ao afirmar que identificar expressões racistas é um passo fundamental para romper com o pacto da branquitude. “Não há transformação sem desconforto. É preciso nomear o racismo para enfrentá-lo”, destaca.
Nesse processo, iniciativas institucionais também desempenham papel importante. Em Mato Grosso, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cajira-MT) atua na formação de profissionais da imprensa, promovendo debates, capacitações e uma lista permanente de fontes negras, contribuindo para uma prática jornalística mais diversa e comprometida com o enfrentamento do racismo estrutural.
No âmbito nacional, o Governo Federal criou o Grupo de Trabalho Interministerial de Comunicação Antirracista, que estabelece diretrizes para uma comunicação pública voltada à igualdade racial e à desconstrução de estereótipos.
Expressões que ferem (Box)
Com base no livro Tire o racismo do vocabulário - glossário de palavras racistas e suas substituições (2022), de Francis Solange Vieira Tourinho.
“A coisa tá preta” – associada à ideia de algo ruim ou perigoso.
“Não sou tuas negas” – refere a posse e abuso contra mulheres negras escravizadas.
“Serviço de preto” – utilizado para desmerecer o trabalho feito por pessoas negras.
“Feito nas coxas” – associada a produção artesanal realizada por pessoas negras escravizadas.
“Mercado Negro” – termo historicamente associado à ilegalidade.
“Doméstica” – termo marcado pela herança escravocrata do trabalho doméstico no Brasil.
“Ovelha Negra” – usada para designar alguém visto como desvio dentro de um grupo.
“Cabelo ruim/ cabelo duro/ cabelo de bombril” – expressões que desvalorizam características físicas associadas a população negra.
“Cor de pele” – expressão que toma a pele branca como referência.
“Mulato/ Moreno” - termos associados a processos históricos de embranquecimento e apagamento da identidade negra.
“Muitos dos nossos antepassados foram
obrigados a aprender português de forma imposta,
mudando nomes, tradições e modos de falar.
Isso é o que chama
de preconceito linguístico”
Luana dos Anjos Ramos




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