“Memórias de Alda”: duas mulheres e um mesmo incômodo silêncio
- 15 de jun.
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Atualizado: 27 de jul.
Por: Estênio Mota

O documentário Memórias de Alda, produzido pelo Núcleo de Produção Digital (NPD) da UFMT Araguaia, ultrapassa as fronteiras de apenas um resgate histórico. Desempenha a ação de um soco no estômago da narrativa oficial que sempre preferiu contar a história de Mato Grosso pelos feitos dos homens brancos desbravadores. As mulheres, especialmente as que não se encaixavam no script do progresso, ficavam no canto escuro da foto.
O filme traz luz à esse canto da imagem. Entrelaça as trajetórias de Alda Vanique e Diacuí Kalapalo, duas figuras marcantes cujas vidas foram marcadas pelo deslocamento, pelo choque cultural e, no final, pela tragédia. Faz isso sem pieguice e sem romantismo barato.
Alda chega do Rio Grande do Sul, casada com o coronel Vanique, para o sertão bruto de Mato Grosso nos anos 1940, durante a Expedição Roncador-Xingu. O que se espera dela é que seja a esposa forte, a companheira civilizadora. Mas, o que ela encontra é uma solidão sufocante, um mundo que não reconhece, totalmente desconectado do modo de vida em que fora criada. Anos depois, Alda se mata com um tiro. Um episódio tratado quase como nota de rodapé na saga dos sertanistas, como se a dor de uma mulher branca, “civilizada”, já fosse incômoda demais para ser lembrada.
Paralela e também intrigante é a história de Diacuí, uma jovem indígena do povo Kalapalo. Retirada da aldeia e levada para o Rio de Janeiro, ela se casa com o sertanista Ayres Câmara, na Igreja da Candelária. O acontecimento se torna um espetáculo nacional, com cobertura da primeira TV da América do Sul, a TV Tupi, apadrinhado por Assis Chateaubriand. Ao redor de uma multidão, vestidos de estilistas, toda a pompa da elite carioca celebrando o que eles construíram em uma narrativa de “integração”. Um conto de fada tropical para o Brasil que queria se ver moderno.

Do final, ninguém gosta de lembrar com detalhes. Quando Diacuí volta grávida para a aldeia, morre durante o parto em uma morte que expõe a falta de qualquer planejamento real e a superficialidade daquele teatro. O que era apresentado como grande união intercultural, na prática revela-se como uma forma sofisticada de violência. Levar uma jovem indígena, mal saída da adolescência, para um universo completamente alheio à sua cultura, vestí-la com roupas que não eram suas, expô-la a um olhar exotizante e depois devolvê-la ao Xingu como se nada tivesse acontecido. É difícil olhar para esse episódio hoje, sem perceber o quanto havia ali um olhar exótico sobre os indígenas, transformados quase em símbolo de um Brasil que queria parecer moderno. No fundo, tratou-se de mais um capítulo da velha estratégia de enfraquecer a organização indígena, de mostrar que o “índio” precisa ser “civilizado”, domesticado, vestido, casado e, se possível, absorvido.
A produção acerta em cheio ao colocar essas duas histórias lado a lado. Alda, a gaúcha que não suportou o sertão e Diacuí, a kalapalo que não suportou (ou não teve chance de suportar) o mundo que tentaram impor a ela. Ambas pagaram com a vida o preço de um projeto maior: o da ocupação, da integração forçada, da ideia de que o progresso brasileiro tinha que passar por cima de corpos e identidades. Os homens brancos, sejam coronéis ou sertanistas bem relacionados com a imprensa, sempre souberam usar o casamento, o sexo, a prole como armas políticas. Uma para “civilizar” o interior trazendo a família branca. Outra para “civilizar” o indígena incorporando-o simbolicamente à nação.

O que Memórias de Alda nos obriga a encarar é a brutalidade dessa assimetria. Não há equivalência entre o sofrimento da mulher que veio do Sul e o da indígena arrancada de sua terra. Mas, há um fio comum - o apagamento sistemático da agência feminina, especialmente quando ela desafia ou escapa ao roteiro patriarcal e colonial. A história de Mato Grosso, como a do Brasil, foi contada priorizando o herói masculino desbravador colocando as mulheres sempre como coadjuvantes ou, pior, como danos colaterais.
O mérito do trabalho cinematográfico está exatamente em trazer essas memórias do escanteio para o centro do debate. Não para gerar culpa, mas para questionar quantas Aldas e quantas Diacuís ainda são silenciadas hoje. Quantas identidades são dissolvidas em nome de um progresso que nunca perguntou se era desejado? O curta não responde tudo e nem precisa. Basta que incomode. E incomoda muito. Porque mostra que, por trás das narrativas bonitas de integração e conquista, há sempre um rastro de dor, de identidades perdidas e de vidas que o país preferiu esquecer.
Memórias de Alda é um lembrete incômodo e necessário. Ver para não repetir. Ou, pelo menos, para não fingir que não vemos.



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