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Médico fala sobre racismo e preconceito na profissão

  • 18 de mai.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 19 de mai.

Em entrevista exclusiva, o médico Petterson Peres discute a baixa representatividade negra na medicina, as barreiras do vestibular e o cotidiano nos hospitais do Vale do Araguaia



Por: Margarete de Castro 


Nascido em Paraúna (GO), filho único de Ivonete, secretária em uma escola de inglês, e de Nivaldo, caminhoneiro. Petterson Augusto Peres tornou-se o primeiro médico da família, um marco em uma área profundamente elitizada e com baixa representatividade negra. Enquanto 55,5% da população brasileira se identifica como negra, parcela composta pela soma de pretas e pardos no país, apenas 22% dos médicos formados no Brasil se autodeclaram negros, de acordo com o Censo de 2022.


Formado pela Unemat, Petterson Peres integra a parcela de apenas 22% de médicos negros no Brasil e relata os desafios de ocupar um espaço historicamente elitizado - Foto: Arquivo Pessoal
Formado pela Unemat, Petterson Peres integra a parcela de apenas 22% de médicos negros no Brasil e relata os desafios de ocupar um espaço historicamente elitizado - Foto: Arquivo Pessoal

Aos 31 anos, o médico Petterson construiu uma trajetória de desafios superados e de orgulho de cada conquista. Cresceu em uma família sem tradição estudantil. Dos 12 tios, nenhum cursou o ensino superior, já que, “por costume, todos ingressavam no mercado de trabalho logo após o ensino médio para ajudar na renda familiar”. Ele foi o segundo da família a alcançar uma vaga na universidade. Foi bolsista integral no ensino médio e no cursinho pré-vestibular. Concluiu o curso de medicina em 2020, na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), mas seu sonho de infância estava distante dessa área. Como muitas crianças do interior, imaginava-se jogador de futebol. A carreira médica parecia inalcançável. Além disso, em seu círculo social não havia qualquer referência médica que pudesse servir de inspiração. “Nunca havia conversado com um médico e, vindo de uma escola pública do interior, ser médico não era uma opção”.


Formado pela Unemat, Petterson Peres integra a parcela de apenas 22% de médicos negros no Brasil e relata os desafios de ocupar um espaço historicamente elitizado. (Foto: Margarete de Castro/Vitrine da Raposa)

Petterson já trabalhou nos municípios de Bom Jardim de Goiás e  Aragarças (GO). Atualmente, exerce a função de médico plantonista no Hospital Nossa Senhora de Abadia, em Ribeirãozinho (MT), na Unidade de Pronto Atendimento e no Hospital Municipal Milton Pessoa Morbeck, em Barra do Garças (MT). Na entrevista a seguir, Petterson fala da infância, da formação acadêmica, do racismo, do preconceito e do prazer de atuar na saúde pública.



Como foi a sua infância? Tive uma infância bem simples, venho de uma família humilde. Como toda criança, sonhei em ser jogador de futebol. Na minha infância certamente vivenciei situações de racismo, porém, acredito ter sido blindado pelos meus pais e, desse modo, não me recordo desses momentos em específico. 


E na adolescência, que sentimentos ou experiências marcaram essa fase? Quando me mudei para Goiânia e fui estudar em cursinho com pessoas de alto poder aquisitivo, majoritariamente brancas, em que entre 300 alunos existiam apenas três negros, sempre me olhavam diferente. Eu me lembro de entrar em lojas e não ser atendido, mas quando eu estava usando o uniforme do cursinho os vendedores logo me abordavam. 


Como você se preparou para ingressar na faculdade de medicina? Ao final do ensino médio, em 2011, fui aprovado no curso de fisioterapia de uma universidade particular em São Luís de Montes Belos (GO), mas meus pais não tinham condições de pagar a mensalidade. Diante disso, fui até Goiânia e realizei uma prova de seleção para um cursinho pré-vestibular, onde fui bolsista integral, com a intenção de ingressar em fisioterapia em uma universidade pública. Morei com uma tia nesse período, comprei uma bicicleta para ir ao cursinho e economizar com o ticket diário do ônibus. Nesse cursinho tive contato com as pessoas que sonhavam alto e, em meio a essas pessoas, comecei a pensar que medicina era um sonho possível e que valia a pena tentar. 


Você enfrentou reprovações antes de ingressar em medicina? Como lidou com esse período e o que o motivou a seguir em frente? Fui reprovado em alguns vestibulares e sempre vinha aquele sentimento de incapacidade e aflição, mas em momento nenhum cogitei desistir. Eu tinha plena consciência que tinha a oportunidade da minha vida nesse período e, após dois anos e meio de preparação intensa, dedicados exclusivamente aos estudos, realizando provas semestralmente, fui aprovado no curso de medicina da Unemat e mudei para Cáceres (MT), em 2014.


Durante a graduação você recebeu algum tipo de auxílio financeiro ou precisou trabalhar para se manter? Não recebi. O curso de medicina é um curso integral e com aulas nos três períodos do dia e sem rotina estabelecida, dificultando um trabalho formal. Trabalhei como monitor de processos seletivos que eram aplicados na universidade, para conseguir uma renda extra. 


Na sua formação você percebeu a falta de conteúdo sobre doenças que afetam de maneira particular a população negra no currículo do curso? Confesso que não senti essa defasagem no conhecimento em relação às doenças que afetam principalmente a população negra e, muito provavelmente, isso se deve a dois fatores: realizei meu curso em Cáceres, cidade com grande incidência de pardos e pretos e, como fiz faculdade em universidade pública, meus estágios foram praticamente todos no SUS [Sistema Único de Saúde], local em que a população negra e de menor poder aquisitivo é atendida. 


Ao longo da sua trajetória acadêmica, você já teve a percepção de ter vivenciado situações de racismo? Na minha trajetória não sofri preconceito pelos colegas, coordenadores ou professores, nunca senti ou percebi um julgamento diferente apenas pela minha cor de pele. 


E na carreira profissional? No meu cotidiano, sim, já passei por algumas situações. Felizmente, não de ofensa verbal ou de negação do meu atendimento, mas de racismo estrutural, sim: a estranha sensação de que, por eu ser negro, não poderia ocupar este cargo. Rotineiramente, perguntam-me se sou brasileiro, apenas pelo fato de eu ser negro, mesmo eu falando um português fluentemente, com sotaque goiano. Muitas vezes, chamo paciente no sistema eletrônico para ir ao meu consultório e, ao adentrarem, perguntam-me se eu sou o médico, mesmo eu estando sentado em frente ao computador, vestido de jaleco e com estetoscópio no pescoço. Diante dessas situações eu devolvo a pergunta e o constrangimento. Por que está me achando estrangeiro? Só porque sou negro? Por que a dúvida se sou médico? Por causa da minha cor de pele? Mas evito discussões e embates, pergunto com um bom humor, até porque prezo por uma boa relação médico/paciente. Tento dedicar-me ao máximo em cada atendimento, a fim de que reconheçam o profissional qualificado que sou e para mostrar que o estigma de que não sou competente o suficiente em virtude da minha raça é uma crença racista e irreal. 


De que forma você projeta seu futuro na carreira médica? Eu planejo me especializar e realizar a residência médica. Tenho desejo de realizar ortopedia, é uma área que gosto bastante e me identifico. Certamente seguirei trabalhando no SUS e em regime de plantões. Gosto muito da saúde pública, tenho um propósito pessoal em ajudar as pessoas que dela dependem.


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