A tendência da moda vintage e o paradoxo do capitalismo
- 26 de jul.
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A origem e a ascensão dos brechós
Por: Bruna Milhomem
A cultura dos brechós surgiu entre os séculos XVIII e XIX como uma alternativa ao consumo acelerado e exagerado, impulsionado pela globalização e pela produção em massa de peças de vestuário. A prática de reutilizar roupas e acessórios usados nasceu com um caráter de contracultura e ganhou força com a ascensão da moda vintage, peças com mais de 20 anos e menos de 100, e com o retorno das tendências das décadas de 1980 e 1990.

O termo brechó tem origem no Brasil do século XIX e está associado ao mascate (vendedor ambulante) Belchior, que fundou estabelecimentos de compra e venda de objetos usados bastante conhecidos na época. A expressão teria surgido da dificuldade dos brasileiros em pronunciar "Casa de Belchior", adaptando-se, ao longo do tempo, para a palavra que conhecemos hoje.
Com peças que carregam autenticidade e a história de seus antigos donos, os brechós se tornaram um atrativo para apreciadores da moda de segunda mão. Além de oferecerem preços mais acessíveis, essas roupas promovem uma relação mais consciente e sustentável com o consumo, unindo estilo e menor impacto ambiental.
Celebridades como Manu Gavassi, Sabrina Sato e Marina Ruy Barbosa também são adeptas da moda circular
Tornando-se uma tendência principalmente entre os jovens, que transformam o "garimpo" de roupas em conteúdo para as redes sociais, o mercado dos brechós tem crescido significativamente. Segundo o portal O Hoje, o setor já registra crescimento superior a 20% ao ano e pode superar o comércio tradicional até 2030.
Fast/Slow Fashion e o paradoxo capitalista
À primeira vista, o crescimento dos brechós parece representar uma resposta ao consumo desenfreado. Afinal, reutilizar uma peça já existente prolonga sua vida útil e reduz a necessidade de produzir outra. Mas até que ponto essa prática continua sendo um ato de resistência quando passa a ser consumida como qualquer outra tendência? Talvez o paradoxo não esteja na roupa, mas na forma como nos relacionamos com ela.
Do consumo desenfreado de roupas e da superprodução de vestuário, características da lógica capitalista, surge o conceito de fast fashion (moda rápida), baseado na produção em larga escala, na renovação constante das coleções e no incentivo ao consumo contínuo. Em oposição a esse modelo, nasce o slow fashion, movimento que defende um consumo mais consciente, a valorização da durabilidade das peças e práticas mais sustentáveis, princípios muito presentes na cultura dos brechós e da moda vintage.
Entretanto, quando o vintage se transforma em tendência, a própria lógica que buscava combater passa a acompanhá-lo. O capitalismo demonstra uma de suas maiores capacidades: transformar até a crítica em oportunidade de mercado. O brechó deixa de ser apenas um espaço de consumo consciente para se tornar mais uma vitrine de desejos.
Inicialmente, uma peça vintage é valorizada por ser rara, carregada de história e única. Quando milhares de pessoas passam a desejar exatamente o mesmo estilo porque ele virou tendência, surge um paradoxo: busca-se autenticidade coletivamente. A singularidade deixa de estar na peça e passa a ser apenas mais um atributo comercializável.
Afinal, até que ponto continuamos sendo autênticos quando seguimos a mesma tendência que milhões de pessoas?
Embora o brechó não gere produção de roupas novas conforme a demanda, como ocorre no varejo tradicional, ele ainda faz parte de uma lógica econômica e procura se adaptar. Com o aumento do consumo, acabam surgindo mais brechós, tanto físicos quanto marketplaces digitais, e até grandes marcas começam a vender suas próprias linhas de segunda mão.

Na falta de peças vintage autênticas, passa-se a produzir roupas novas com aparência vintage e surgem lançamentos no estilo retrô. Assim, a indústria continua criando novas mercadorias para atender ao desejo e o comportamento consumista permanece sendo alimentado.
Talvez a sustentabilidade nunca tenha estado apenas na origem da roupa, mas na maneira como escolhemos consumi-la. Comprar uma peça usada porque ela terá um novo ciclo de vida é diferente de comprar dez porque "estavam baratas". Quando o impulso pela novidade permanece, apenas muda o endereço da compra.
A lógica capitalista também se manifesta quando há hiperacumulação. Ela aparece quando o valor de um objeto deixa de estar em seu uso e passa a ser substituído pela necessidade constante de possuir mais. Talvez seja justamente esse desejo, e não a roupa em si, que alimenta o sistema que tanto criticamos.
Afinal, de que adianta trocar a fast fashion pelo brechó se continuamos consumindo movidos pela mesma urgência?
O vintage pode prolongar a vida das peças, mas dificilmente transformará nossa relação com o consumo enquanto a novidade continuar valendo mais do que a permanência. No fim, o maior desafio talvez não seja mudar o guarda-roupa, e sim a forma como olhamos para ele.




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