O duro ofício de vestir a camisa da Argentina
- 23 de jul.
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Atualizado: 23 de jul.
A seleção transformou-se, gostemos ou não, no único espaço onde uma sociedade profundamente dividida ainda consegue reconhecer algo de comum
Por: Gustavo Muria
Escrevo estas linhas a partir de um lugar de fala bastante particular. Sou argentino. Moro no Brasil há muitos anos. Talvez, justamente por isso, aprendi a enxergar meu país com certa distância, diferente dos que vivem nele conseguiriam ter. Curiosamente, quanto mais tempo passo aqui, mais percebo que o brasileiro fala da Argentina com enorme segurança, embora, na maioria das vezes, conheça apenas Buenos Aires, Messi, Maradona, um tango, duas empanadas e, claro, os noventa minutos de um clássico. É pouco. Muito pouco. Seria como eu passar um fim de semana em Copacabana e voltar dizendo que compreendi o Brasil.

Nos últimos dias voltaram as críticas à seleção argentina. Não é novidade. Muda o motivo, mudam os protagonistas, mudam as palavras da moda, mas o roteiro permanece exatamente o mesmo. Ora a seleção é arrogante, ora é racista, ora é insensível, ora é omissa; se fala, fala demais, se cala, cala por cumplicidade. Há sempre alguém esperando que aqueles vinte e poucos rapazes, convocados para jogar futebol, resolvam também a economia, o feminismo, o racismo, a questão palestina, os direitos humanos, a inflação, a memória histórica e, mantido o ritmo, não me surpreenderia que em breve lhes pedissem um pronunciamento oficial sobre quem, afinal, matou Carlos Gardel.
Talvez seja preciso explicar uma coisa que quase nunca aparece quando se discute a Argentina fora dela. A seleção deixou de ser apenas uma equipe de futebol. Transformou-se, gostemos ou não, no único espaço onde uma sociedade profundamente dividida ainda consegue reconhecer algo de comum.
A Argentina de hoje discute tudo!
Discute Perón e anti-Perón; Cristina e Milei; mercado e Estado; aborto; linguagem inclusiva; ditadura; guerrilha; Malvinas; racismo; imigração. Discute o passado, o presente e até o futuro antes que ele aconteça. Há famílias que já não conseguem sentar-se na mesma mesa sem que alguém se levante ofendido antes da sobremesa. No entanto, quando a seleção entra em campo, por noventa minutos existe uma trégua. Pequena, frágil, provisória, mas existe. E justamente por isso todos querem capturá-la.

Foi o que aconteceu depois do Mundial de 2022. A decisão dos jogadores de não transformar a Casa Rosada em cenário da comemoração me pareceu absolutamente natural. A Copa era da seleção. Era do povo. Não do governo de turno, nem do anterior, nem do próximo. Bastou, porém, que recusassem converter um triunfo esportivo em fotografia institucional para que começassem as cobranças. Um jornalista da TV Pública chamou os jogadores de “desclasados”; depois pediu desculpas, é verdade, mas o estrago já estava feito, porque a palavra dizia muito mais do que o próprio autor talvez pretendesse dizer. Ela revelava uma expectativa cada vez mais comum: a de que o atleta deixe de ser atleta e aceite o papel de representante político.
É nesse ponto que reaparece, invariavelmente, Maradona. Não como jogador, porque essa discussão jamais terminará, mas como paradigma. Há setores, especialmente ligados ao progressismo peronista, que lamentam o fato de Messi não ser Maradona. Prefeririam um craque que discursasse, que militasse, que escolhesse um lado, que subisse ao palanque certo, que emprestasse sua legitimidade esportiva às causas consideradas corretas. Messi, ao contrário, insiste numa postura quase escandalosa para os tempos atuais: joga futebol. Fala pouco. Não distribui sermões. Não converte entrevistas em manifestos. Não parece interessado em liderar ninguém além do próprio time.
Isso significa que seja indiferente ao sofrimento humano?
Difícil sustentar essa tese quando existem gestos que dispensam microfones. A fotografia em que recebe o pequeno Murtaza Ahmadi, o menino afegão que improvisou uma camisa da Argentina com um saco plástico porque sua família não podia comprar uma verdadeira, vale mais do que muitas campanhas cuidadosamente roteirizadas para as redes sociais. Há pessoas que preferem transformar a compaixão em espetáculo, outras simplesmente a praticam.
Talvez resida aí o verdadeiro problema. Vivemos uma época em que já não basta fazer bem aquilo para o qual alguém se preparou durante toda a vida. Exige-se mais. Exige-se opinião. Exige-se militância. Exige-se alinhamento. O silêncio passou a ser interpretado como culpa; a prudência, como covardia; a neutralidade, como traição. Curiosamente, aqueles que mais falam em diversidade parecem aceitar apenas uma forma legítima de pensar.

Continuo acreditando que uma seleção nacional não foi criada para funcionar como departamento de comunicação de governos, partidos ou movimentos sociais. Foi criada para representar um país. E, num país que já não consegue concordar sobre quase nada, talvez o maior serviço prestado por esta geração de jogadores tenha sido justamente preservar um dos últimos símbolos que ainda pertencem a todos os argentinos. Não é pouca coisa. Talvez seja, hoje, a mais difícil de todas as vitórias.




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